Cultura e Estética no Museu de Arte Negra

Abdias do Nascimento


Se para compreendermos um povo - e daí visualizar um projeto induzido de enfoque prospectivo - impõe-se a imediata necessidade do conhecimento prévio do seu passado, o povo brasileiro revela-se entre os mais desafortunados. Ignora-se, sob ângulo correto e objetivo, a contribuição do negro à formação cultural do Brasil. Entretanto, o negro é, segundo Joaquim Nabuco, o elemento básico e decisivo do país, em todos os aspectos: étnico, econômico, social, histórico.

Dentre as manifestações culturais do negro-africano escravizado, as artes negras apenas superficialmente têm merecido referências de estudiosos e de críticos de arte. Trata-se de território quase virgem e inédito no campo de nossas pesquisas, o que, aliás, não surpreende aos que estão informados dos processos, sutis e tortuosos, empregados através dos séculos, para manter o negro e sua cultura de origem proscritos artificialmente do elenco de valores fundamentais de nossa cultura e da nossa civilização.

Recusando as deformações sentimentais tão costumeiras, denunciando as ideologias interesseiras e a pseudo-ciência domesticadora que falseiam a real situação do negro no processo histórico brasileiro, o Teatro Experimental do Negro vem desenvolvendo um trabalho de vinte e cinco anos no sentido de resgatar a imagem verdadeira do afro-brasileiro, afim de restituí-lo a si mesmo e à nova Pátria na condição de ser humano autêntico, dignificado na sua difensão de etnia e espírito. O T.E.N. agiu revolucionariamente contrariando o lugar comum, insurgindo-se contra as estereotipias, voltando-se agora para o campo particular da manifestação plástica e organizando departamento específico na forma do Museu de Arte Negra.

Ele é - o Museu de Arte Negra - uma resultante da teoria da Negritude. Esta, a Negritude, implica uma visão de arte e de vida - costumes, história, crenças, estética - enfim, um complexo de valores a serem resgatados após quatro séculos de existência na opressão, secundarizados quer no continente africano, ou em terras da América e Europa. Conforme sábia definição de Leopold Sedar Senghor, é na obra de arte que o negro-africano melhor exprime sua cultura.

Nosso museu abria obras de pretos, de brancos, de amarelos, dos homens de todas as raças e nacionalidades. Importam aqueles valores estéticos que só a raça ou a vivência dos valores da raça negra conferem à obra. Por isso o Museu de Arte Negra guarda a importante colaboração de artistas influenciados pela presença do negro, como um Scliar, Ivan Serpa, B. Giorgi, J. P. M. Fonseca, Mário Cravo, Edelweiss, Inimá; por outro lado, o fato de um Volpi, Mabe, Flávio Carvalho, Décio Vieira, Rubens Gerchman, Iberê Camargo, Fayga, Ana Letícia, Benjamim Silva, Jarbas Juarez, Bonadei, W. Levy, Maria Bonomi, Lígia Clark, Campofiorito, Di Preti, Paulo Chaves, J. Assumpção Souza, L. Azevedo, Darel, figurar como colaboradores espontâneos do MAN, revela o alcance ecumênico como seu trabalho é concebido e dinamizado. Livre de qualquer dogmatismo nos propósitos e na ação, o MAN tampouco se submete a um irresponsável ecletismo que não atenda à exigência de valor.

O Museu de Arte Negra começou do nada. Apenas recém-nascido, sua célula máter constituiu-se de nossa coleção particular obtida com grandes sacrifícios - colaborações, compra, troca, etc - isto é, formou-se daqueles trabalhos que caracterizávamos como padrões para o Museu nascente: uma cabeça de animal, de Agnaldo dos Santos, um painel, de Júlia Van Roger, o Cristo Favelado, de Otávio Araújo, os Omulus, de Cleoo, a capoeira, de Lúcia Fraga, a Lugudedê, de Manoel Bonfim, o Exu, de Aldemir Martins, o Rei Negro, de José Barbosa, a casa vermelha, de José de Dome, a favela, de Iara, as crianças brincando, de Agenor, o casamento, de Nilza Benes, a via sacra, de Zu, as estrelas, de Lito Cavalcanti, soltando balões, de Heitor dos Prazeres. Obras de Maria Albuquerque, de Roberto, Gildemberg, Elsa, Holmes Estevão, Juarez Paraíso, Emanuel Araújo, J. Tarcísio, João Alves, Gérson, Solano Trindade, A. Maia, Darcílio e muitos outros que a alta de espaço obriga omitir.

Surgiu ilhado no desamparo total dos poderes públicos. No entanto, passou a existir por corresponder a uma exigência profunda de nosso desenvolvimento artístico, via de regra artificial e inautêntico, mais condicionado aos apelos da promoção social que interessado nos problemas duma criatividade legítima. Expondo parte de seu acervo - mais de cento e quarenta trabalhos entre pintura, desenho, escultura, gravura, arte popular brasileira e peças africanas - no Museu da Imagem e do Som, durante o mês de maio em mostra comemorativa do octogésimo aniversário da abolição da escravatura, o MAN obteve o testemunho de sua necessidade no alto índice de visitantes, cerca de cem pessoas diárias, pertencentes a todas as classes sociais, principalmente jovens estudantes que lá compareciam em grupos orientados por professores sinceramente curiosos e interessados.

Por ocasião dessa mostra um escultor de talento excepcional foi revelado ao público: José Heitor, ferroviário de Além Paraíba, o qual, ao lado do pintor Januário, de Dores de Guanhães, formam a dupla de artistas que sendo mineiros de origem são universais na alta categoria de sua obra, na essência de Negritude, no reencontro com as origens manifestos em seus trabalhos.

Não é e não será o Museu de Arte Negra um órgão de acumulação ou depósito de um arquivo morto. Sob o critério da seleção estética, informado de Negritude, mas, fundamentalmente sujeito às imposições do humanismo, o MAN não se limitará ao campo exclusivo das artes plásticas. Será instrumento de pesquisas no amplo e vasto universo cultural afro-brasileiro. Aberto a todas as colaborações, desdenhará, entretanto, a incompreensão surda e muda dos conselhos de cultura, esterilizado na burocracia, prematuramente fenecidos no seu academismo original, ignorando que o típico, o autêntico, o significativo e específico da arte brasileira vêm, indubitavelmente da emoção, da sensibilidade do negro traduzidas em sua manifestação viva de arte, nos seus produtos culturais e estéticos densos de fascinação e amor.

Revista Galeria de Arte Moderna, n. 14 (Rio de Janeiro, 1968), págs. 21-22.